terça-feira, 24 de junho de 2014

Grupo isola duas toxinas de veneno de serpente

JORNAL DA UNICAMP
Campinas, 09 de junho de 2014 a 22 de junho de 2014 – ANO 2014 – Nº 600
JORNAL
Descoberta feita por pesquisadores brasileiros pode resultar no desenvolvimento de fármacos



Uma equipe de pesquisadores ligados a instituições brasileiras, incluindo o Laboratório de Química de Proteínas (Laquip) do Departamento de Bioquímica do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, conseguiu isolar e caracterizar duas toxinas presentes no veneno da serpente Bothrops brazili, um tipo de jararaca que vive na América do Sul, já tendo sido encontrada no Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Guiana Francesa. Artigos descrevendo as moléculas e seu modo de ação no corpo humano já foram publicados em periódicos internacionais, como Biochimica et Biophysica ActaToxicon e Acta Crystallographica. Essas descobertas poderão vir a ajudar não só no tratamento das vítimas de picada, mas também no desenvolvimento de novas drogas para outros problemas de saúde – uma molécula encontrada no veneno de outra espécie de jararaca, Bothrops jararaca, já serviu de base para a criação de um remédio para hipertensão.
As serpentes do gênero Bothrops – as jararacas – aparecem em cerca de 90% dos casos de envenenamento por picada de cobra no Brasil, mas não existe um soro antiofídico capaz de ser útil para qualquer tipo de picada, mesmo quando a espécie exata do animal é conhecida. “Há diferenças na composição do veneno dependendo da distribuição geográfica, a alimentação e até a idade da serpente”, explicou ao Jornal da Unicamp o pesquisador peruano Salomón Huancahuire-Vega, que iniciou seus estudos com o veneno da B. brazili durante o mestrado, realizado no Laquip e é autor das publicações sobre as duas moléculas caracterizadas. Suas pesquisas continuaram no doutorado e prosseguem agora no pós-doutorado, também realizados na Unicamp sob a orientação do professor Sergio Marangoni.
“Toda essa variabilidade não permite ter um soro antiofídico que possa ser útil para qualquer acidente ofídico, pois o soro será efetivo para aquelas toxinas que estavam presentes no veneno com o qual se preparou o soro, e se o acidente ocorre com uma serpente que expressa alguma toxina diferente, a eficiência do soro diminui, e é exatamente isso o que acontece na realidade”, disse ele. “Sempre que um acidente ocorre com alguma serpente botrópica, apesar do uso do soro antiofídico, alguns danos são irreversíveis”.
No caso específico da B. brazili, a serpente produz uma quantidade excepcional de veneno em suas glândulas, o que a torna ainda mais perigosa. “No envenenamento causado por B. brazili, ocorrem consequências sérias, devido aos componentes tóxicos presentes no veneno, assim como ao grande volume inoculado”, disse Huancahuire-Vega.
O estudo detalhado das moléculas que compõem o veneno das serpentes também pode abrir caminho para a descoberta de novos fármacos, capazes de salvar vidas mesmo fora do contexto do envenenamento por picada de serpente. “As toxinas do veneno da serpente possuem alta especificidade de seu alvo. São consideradas, cada vez mais, como modelos biológicos e têm contribuído para o conhecimento de como cada aminoácido da cadeia que compõe a proteína participa na expressão biológica da molécula”, disse Huancahuire-Vega. “Dessa forma, são cada vez mais utilizadas como ferramentas farmacológicas e como protótipo natural para o desenvolvimento de medicamentos”.
O que sustenta essa estratégia industrial, explicou ele, é o fato de as toxinas representarem um modelo biológico isolado e purificado em laboratório, com moléculas homogêneas, de características físico-químicas já bem definidas e submetidas a testes farmacológicos. “Todo resultado advindo dessas moléculas podemos atribuir às suas características estruturais, que contribuem para a organização espacial da molécula, fazendo que seja uma proteína funcional”.
Ele cita como exemplo o captopril, medicamento usado no combate à hipertensão arterial. Criado nos Estados Unidos em 1977, o medicamento surgiu a partir de um estudo do veneno da serpente Bothrops jararaca, feito no Brasil nos anos 60. Em tempos mais recentes, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) têm estudado o uso de proteínas do veneno da jararaca e da cascavel na criação de adesivos para uso medicinal – capazes de fechar cortes na pele, por exemplo – e no combate ao câncer.
saiba mais


fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/600/grupo-isola-duas-toxinas-de-veneno-de-serpente

Nenhum comentário:

Postar um comentário